Pra começar
Às vezes acho que Clarice Lispector escreveu coisas pensando que eu poderia concordar com ela. “Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim”. Procuro ter olhos e ouvidos atentos. Gosto de novidade, vivo sem refrigerante e cerveja, mas tomo muita água. Escuto música quase o tempo todo, mas adoro silêncio e ficar em minha companhia. Amo livros e revistas. E a Avenida Paulista. Faço diálogos mentais, tento ver o lado bom das coisas e ajudar as pessoas. Acredito no humano e na força das palavras. E escrevo. Às vezes apago, deleto, risco, arranco a página e jogo fora. Mas escrevo. E às vezes leio, me orgulho, compartilho, ou guardo para ler mais tarde. Sem grandes pretensões, mas com muita surpresa, cada vez mais escuto a tal bruxa da literatura dizendo “sou um o quê? Um quase tudo." E como é difícil falar sobre isso.
Basicamente, sou designer de moda e aspirante a jornalista. Mas não gosto do “basicamente”. Minha vontade de estudar moda começou a aparecer quando notei que queria coisas que não existiam. Ou quando achava que o tom do verde podia ser diferente. Mesmo pesquisando bastante, por curiosidade e muita vontade, a faculdade de moda foi uma surpresa. Uma ótima surpresa! Sim, trabalhamos com criatividade, proporção, cores e desenhos. Mas meus olhos foram para outro lado. Teoria da comunicação conseguiu resumir tudo.
Entendi que moda é comunicação. É resultado e espelho de processos sociais, econômicos e antropológicos. É muito mais do que seda.
Ouvi dizer que só sabemos o que estamos fazendo se somos capazes de escrever sobre isso. Pra mim, escrever foi um processo natural. Uma daquelas coisas que vêm aos pares: ler e escrever. Ler o que estiver ao alcance dos olhos. Escrever o que estiver na cabeça.
A questão não é escrever sobre moda. Muito menos escrever “vestido preto” abaixo da foto de um vestido preto. É escrever sobre tudo, o tempo todo. Se para um certo guardador de rebanhos os pensamentos eram todos sensações, para mim são todos palavras. E palavras escritas, muitas vezes. O que é escrito é incontestável e eterno – ou quase! Escrevo para organizar as ideias, para não esquecer, para me expressar. E ler e escrever me dão mais vontade de continuar fazendo isso.
Decidi que iria estudar jornalismo depois que terminasse a faculdade de moda. É o que estou fazendo. E conforme estudo comunicação percebo mais ainda como falam da mesma coisa, mas de formas diferentes. E essas formas podem – e devem – ser aliadas. Mais do que escrever sobre um assunto que conheço, busco conhecer o assunto sobre o qual vou escrever.
Como disse, é bem difícil falar isso. Um quase tudo em formação editado em 22 anos e uns milhares de caracteres.